02 August, 2010
Lugares
A nossa existência é sempre criada e vista em perspectiva. Martin Heidegger trouxe-nos o Dasein, o ser-aí; Camus presenteou-nos com o Mito de Sísifo Ortega; Gasset dizia que "eu sou eu e a minha circunstância..." e na basílica de Santa Maria del Popolo há uma frase dividida em duas partes que diz: "O homem não está morto, nem vivo em lugar algum".
Queria, portanto, falar de lugares. Lugares para cada pessoa. Começo por referir que o que me levou a falar de tal tema foi o propósito de não falar em bandas, músicas, concertos e outros lugares comuns existentes na blogosfera. Só conseguimos ver o mundo na nossa perspectiva e não consigo fugir da minha...mesmo. Por isso, odeio Arcade Fire, não consigo ouvir Vampire Weekend, os Artic Monkeys deveriam adoecer and so on and so forth. São alguns exemplos de um género de cultura que povoa lugares por pouco tempo. São nómadas de um deserto musical que caminha para o vácuo.
Na busca por um sentido musical vi-me num abismo "vertiginoso", tudo soava mal, tudo era igual, faltava um termo que não se utiliza hoje, faltava magia. Quantas vezes dizemos que algo é mágico (tirando o amor)? Poucas vezes. Até que um dia, há uns 5 ou 6 anos atrás me apercebi de um lugar mágico. Esse lugar chamava-se Convict Pool. Foi aqui que eu descobri Calexico. Durante algum tempo tive vergonha (a sério!). Uma banda de Tucson que compunha muitas vezes em Espanhol era motivo para eu ficar constrangido num mundo de Miss Kittins e Franz Ferdinands! Lá andei nesse lugar mágico, sozinho. Ia descobrindo sitios como The Ballad of Cable Hogue, Crystal Frontier, Descamino e sentia-me cada vez melhor. Até que um dia, fui até ao Jardim das Ruinas e tive um momento de "frescura"...é isto! Eu gosto de Calexico, eu gosto de Jose Hernandez, eu ouço Jose Alfredo Jimenez, eu só consigo rir ao ouvir a Cilantro e só me apetece ir para Tucson para estar mais próximo do México, a minha casa. "LOL! Isto é tão infantil!". Não, é mágico.
A musica de Calexico, a musica Mariachi, a Ranchera tem a capacidade de me transportar para um lugar onde tudo é absurdo, nada tem valor ou sentido mas ainda bem que assim é. Ainda não entendi como isto me acontece. Não sou mexicano, não provenho de uma cultura Americana mas há um encaixe.
É escusado e, de certa forma, pedante falar das datas de lançamento dos albuns, quem compôs as canções, onde nasceram, se são casados, uma pesquisa rápida no Google e encontram tudo. Agora, ouvindo e vendo os concertos é que nos apercebemos da simplicidade e do encanto das melodias.
Serão os trompetes e as vozes desesperadas que me cativam? Será o amor destruido que me lança in media res e me desperta sentimentos de...nem sei, sentimentos que não assentam na linguagem? Talvez seja o facto dessas musicas me darem aquilo que mais preciso, solitude, solidão e amplitude.
Estas descrições que aqui coloco, têm um propósito simples, será que é possivel compartilharem estas sensações comigo? Será possivel que estas melodias, estas formas de vida musicais sejam mais gerais do que o que eu penso? Será a musica menos pessoal do que aquilo que se diz?
By Filipe de Colofon
Subscribe to:
Post Comments (Atom)

Acho que afinal gosto de Calexico. O problema é que eles têm tantas músicas que fica fácil encontrar uma menos boa.
ReplyDeleteMuchas gracias niño
A questão com Calexico é que, eu não consigo ouvir da mesma forma que ouço outras coisas. Ao ouvir, aceito e não consigo distinguir umas de outras. Por isso é que acho que Calexico é um lugar...
ReplyDeleteEsta música mata-me, fosga-se!
ReplyDelete